APROXIMAÇÕES DA ARQUEOLOGIA BRASILEIRA COM A TEORIA QUEER

 

Resumen:

A temática Queer insere-se no âmbito das pesquisas sociais como contraponto as condutas dominantes pautadas na heteronormatividade e no binarismo, que apregoam que modelo heterossexual formado por um homem e uma mulher é o único aceitável, correto e saudável. Este movimento ganhou força nos Estados Unidos, sobretudo, na década de 1980, quando se começou a positivar a expressão pejorativa Queer, traduzida para o português como “estranho”, “esquisito”, “ridículo”, “excêntrico”, mas também “raro” e “extraordinário” (LOURO, 2004). Logo, a ideia foi encarar uma prática linguística degradante, que ressaltava acusações, patologias e insultos aos sujeitos nominados, transformando-a em uma expressão de poder para caracterizar uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas (BUTLER, 2002). Portanto, a teoria Queer colocou-se como um marco político contra o estranhamento nas formas de pensar dominantes, inclusive as acadêmicas, tanto se rebelando, como desfrutando de sua condição marginal (GAMSON, 2002). No âmbito da arqueologia brasileira, a temática Queer tem sido abordada timidamente, sobretudo, em práticas camp, com marcações politicamente engajadas e de militância contra práticas heterosexistas, homofóbicas, machistas e verticais, mas com pouca inserção em espaços de discussão ou na construção de debates teórico-metodológicos para construção de possíveis linhas de investigação no país. Neste contexto, este simpósio se justifica fortemente, visto que ele é uma das primeiras iniciativas em se reunir pesquisas iniciais, em andamento ou consolidadas que abordem aspectos transversais relacionados com a temática Queer no Brasil, tendo como principais interfaces a arqueologia, a prática arqueológica, a cultura material, a história, a política, a cultura e a sociedade. Da mesma forma, busca refletir como a teoria Queer pode contribuir com o desenvolvimento de outras práticas arqueológicas menos desiguais e com a discussão da diversidade sociocultural no tempo e espaço.

Palabras claves:

Teoria Queer; Arqueologia, Política; Sociedade; Brasil.

 

COORDINADORES: 

 

Arkley Marques Bandeira – Doutor em Arqueologia. Docente da Universidade Federal do Maranhão – Campus de Pinheiro. E-mail: arkleymbandeira@gmail.com

Frederic M. C. Pouget - Doutorado Historia Cultural. Pesquisador Pós-doc no Laboratório de Arqueologia Pública - NEPAM/ UNICAMP. E-mail: pouget@yahoo.com

 

Relator o Comentarista del simposio.

 

Arkley Marques Bandeira – Doutor em Arqueologia. Docente da Universidade Federal do Maranhão – Campus de Pinheiro. E-mail: arkleymbandeira@gmail.com

PONENCIAS

 

01

As folhas de vinhas das Evas da Ilha de Marajó e a (de)construção de paradigmas em Arqueologia

 

Emerson Nobre. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – Brasil

 

As primeiras investigações com foco na cerâmica marajoara remontam ao final do século XIX, quando a Arqueologia, no Brasil, era praticada exclusivamente por homens e, mais especificamente, por homens heterossexuais. Foi neste cenário que um dos objetos mais emblemáticos da Arqueologia amazônica, as tangas cerâmicas, devido ao seu formato triangular, que aludiria a uma púbis, foi interpretado como tendo sido uma prerrogativa exclusivamente feminina.

Para aqueles arqueólogos, do último quartel do século XIX, as tangas teriam composto os trajes fundamentais das indígenas. Entre as referências para designar as tangas, nos textos científicos da época, encontram-se folium vitis e folhas de videiras das Evas, o que evoca à idealização da mulher indígena que era vigente na literatura e artes plásticas indianistas da época, cujo corpo era destacado pela sua nudez ou semi-nudez.

Atualmente, quase cento e cinquenta anos após estes estudos definidores, malgrado os largos passos dados pela Arqueologia enquanto disciplina, a ideia acima comentada continua sendo reproduzida e aceita na comunidade arqueológica, apesar dos poucos dados existentes. No entanto, identificamos, por meio de um levantamento dos registros disponíveis, quatro tangas (entre as centenas existentes em reservas técnicas de diversos museus) cujos indivíduos associados a elas tiveram o seu sexo identificado, o que mostra um cenário bem mais diverso do que aquele até agora aceito.

Diante do exposto, esta comunicação pretende refletir como a Arqueologia constrói a sua definição sobre o “outro” do passado a partir do espelhamento de conceitos relacionado ao “eu” ocidental do presente, redundando, sobretudo, em construções que contam mais a respeito de nós mesmos do que das sociedades pré-coloniais. Deteremos-nos, assim, em como certos aspectos determinaram a interpretação das tangas por meio de uma perspectiva não somente ocidental, mas também sexista.

 

02

Ampliação da noção da diferença por meio da interseccionalidade nas práticas educativas na arqueologia.

Maurício André da Silva. Doutorando em Arqueologia, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo – Brasil. Educador do MAE-USP – Brasil

 

Esta comunicação busca refletir sobre o conceito de interseccionalidade, que articula categorias como sexualidade, gênero, classe, geração entre outros eixos identitários, com as práticas educativas desenvolvidas na arqueologia. O fortalecimento e avanço dos campos da Arqueologia Pública, Musealização da Arqueologia entre outras frentes têm construído e experimentado variados engajamentos e apropriações do passado e presente.

Esse lugar é privilegiado para desenvolvermos reflexões teóricas e práticas articuladas com as múltiplas categorias sociais da diferença que nos constituem como pessoas. Com o crescente conservadorismo no país, a arqueologia possui um papel político no debate e promoção da diversidade. O estudo da interseccionalidade, nesse sentido, tem apresentado resultados interessantes em movimentos sociais, assim como em muitos campos do conhecimento, no desvelamento e problematização de forças opressoras que mascaram e naturalizam desigualdades.

Essa reflexão tem me mobilizado dentro da minha prática como arqueólogo, como educador de um museu universitário de arqueologia que atua em um espaço fórum que problematiza e articula diferenças no tempo e no espaço. Podemos ampliar esses locais para dar mais visibilidade e atuar com outras minorias na defesa e promoção de distintos modos de vida.

 

03

Patrimônio como categoria de luta LGBT+?

 

Bruno S. Ranzani da Silva - PAA/UFOPA – Brasil

 

Para os propósitos deste resumo, partirei da concepção de patrimônio como uma categoria Estatal de gestão do espaço público e da memória social (SILVA 2017). Nesse escopo, gostaria de fazer algumas considerações sobre o uso dessa categoria como instrumento de luta, como retórica que possa carregar pautas sociais em negociação com o Estado pela melhoria da qualidade de vida da população – aqui, falo da população LGBT+.

Tramita no legislativo municipal desde abril de 2017 a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 399/2017, que “Declara a ‘Parada do Orgulho LGBT de São Paulo’ como Patrimônio Cultural Imaterial da Cidade de São Paulo”. Considerando que o patrimônio imaterial envolve materialidades essenciais para a reprodução de práticas tradicionais, considero o tema de relevância arqueológica e abordarei o caso da “Parada LGBT” pelas seguintes perguntas: 1) Quais agentes estão envolvidos no processo? 2) Como se propõe o uso do Registro em prol da população LGBT+? 3) Quais materialidades envolve o processo de Registro? 4) Qual abrangência representativa desse processo (materialidades e imaterialidades) e da Parada para a população LGBT+?

Referências

SILVA, Bruno S. Ranzani da. Descobrindo a Chácara e a Charqueada, pela arqueologia pública. Tese (Doutorado em Arqueologia). Programa de Pós-Graduação em Arqueologia. Museu de Arqueologia e Etnologia. Universidade de São Paulo. 2017. 357f.

 

04

Nem ela, nem ele? : por uma arqueologia (trans* e) além do binário

 

Gabby Hartemann - Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Brasil

 

Apesar das dificuldades e desafios enfrentados, a arqueologia construída a partir da crítica feminista tem buscado abordar os dados e contextos arqueológicos sem o filtro androcêntrico o qual caracteriza a maior parte da história da disciplina. A teoria queer, chegada ainda mais recentemente na paisagem teórica da arqueologia, tem tido um peso tanto quanto relevante para as tentativas de abranger mais diversidade humana na sua produção atual. Porém, se já existe uma reticência para abordar a variedade sexual humana na arqueologia, exercício ainda bem marginal e pouco entendido pelos pares, a diversidade de sexo e de gênero quando mencionada, fica reduzida a raras ocorrências, quase anedóticas, nos discursos arqueológicos. Pode a arqueologia produzir conhecimento sobre gênero(s) que não mantenha pessoas transgêneras na condição de anomalia? Tendo em vista o incrível e permanente silêncio na literatura arqueológica no que concernem as existências e corpos que sejam fora de binarismos macho/fêmea e homem/mulher, esse trabalho aponta para a necessidade de construirmos uma crítica queer no âmbito da prática e produção do conhecimento da arqueologia que transcenda os binarismos de gênero e de sexo. A partir de uma exploração da literatura de diversas áreas de conhecimento, procura-se enxergar as formas com as quais o tema da ambiguidade de sexo e de gênero tem sido tratado, bem como pretende-se dar visibilidade aos caminhos alternativos sendo traçados. O olhar transgênero proposto nessa reflexão afirma-se enquanto esforço que visa fortalecer uma arqueologia queer brasileira disposta a distanciar-se de discursos hegemônicos sobre o que constitui a normalidade.

 

05

“Piada de Branco”? Homofobia como prática de sociabilidade na Prática Arqueológica.

 

Frederic M. C. Pouget. Doutorado Historia Cultural. Pesquisador Pós-doc no Laboratório de Arqueologia Pública - NEPAM/ UNICAMP – Brasil

 

A comunicação proposta tem como objetivo traçar algumas considerações sobre à prática de campo arqueológico e as estratégias sociais que são levadas a cabo para a realização de tais trabalhos. Para tanto, me baseio na etnografia realizada entre os índios Kaiabis (na Amazônia) para uma reflexão sobre a importância da etnografia arqueológica, da antropologia da ciência e dos estudos de gênero e queer, para compor uma prática de construção do conhecimento arqueológico mais pluralizada. Para tanto, considero o conhecimento arqueológico como resultado não apenas do campo teórico e metodológico da disciplina, mas, também das práticas e cotidianos dos campos arqueológicos que envolvem uma pluralidade de atores sociais, que refletem assim aspectos ontológicos da própria ciência arqueológica.