Territorialidades,  saberes ancestrais e conhecimento científico: 

uma abordagem comparativa

 

Resumen:

Lideranças e ativistas indígenas e demais povos tradicionais em Abya Yala (“terra madura” em língua Kuna) vêm pagando com suas vidas a defesa de seus mundos, cujos modos de vida, apesar de assumirem aspectos bastante diversificados,  apresentam elementos comuns que podem propiciar  um exercício comparativo, almejado neste Simpósio.

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (2010)  vem,  desde o início dos anos noventa,  produzindo reflexões acerca da estrutura e construção do conhecimento moderno, cunhando o conceito de “epistemologias do sul” que contempla o  escopo desta proposta.

Diferentes povos tradicionais vêm atuando na arena política em prol da diversidade dos seus modos de ser e de viver  que incluem  a defesa de suas línguas, cosmologias e saberes,  segundo os quais também produzem seus territórios.  Trata-se de lutas ontológicas que reivindicam o “pluriverso” enquanto um mundo onde muitos mundos se encaixam,  conforme postulam os Zapatistas.

O axioma da  conjuntura contemporânea,  em seus críticos dilemas, nos incita a enfrentar problemas modernos para os quais não existem  soluções modernas  (Boaventura apud Escobar, 2016).   Por outro lado, a crise contemporânea tem colocado em cheque uma série de práticas de vida e de conhecimento,  principalmente no que diz respeito à forma dominante denominada euromodernidade (capitalista, racionalista, liberal, secular, patriarcal, branca, etc) (ESCOBAR, 2016).

A partir destas considerações  pretendemos reunir, neste Simpósio, pesquisadores e sábios tradicionais interessados na discussão  das  “epistemologias do sul” em seus  desafios relativos à interculturalidade – categoria teórica inerente à produção de novos saberes que respeitem os diversos modos de pensar e produzir mundos,  de forma a descolonizar os conhecimentos acadêmicos. 

Estudos sobre as lutas pelas perseverança das línguas e saberes indígenas, bem como sobre suas  memórias e territorialidade, em suas dimensões étnico-territoriais e podem ser concebidas como ontológicos, fazem parte deste Simpósio.

Palabras claves:

Interculturalidade – lutas ontológicas – saberes ancestrais – epistemologias do sul.

 

COORDINADORES: 

 

Ana Paula Silva (Pró-Índio, UERJ) anapproindio@gmail.com

José Ribamar Bessa Freire (UNIRIO) bessa_18@hotmail.com

Izabel Missagia de Mattos (UFRRJ) belmissagia@gmail.com

 

Relator o Comentarista del simposio.

 

Juciene Ricarte (UFCG) Juciene Ricarte jucieneufcg@gmail.com

 

PONENCIAS

}

01

Mbya Arandu: saberes e práticas tradicionais Guarani Mbya

 

Ana Paula da Silva (UERJ) Email: anapproindio@gmail.com

José Ribamar Bessa Freire (UERJ/UNIRIO) Email: bessa_18@hotmail.com

 

Atualmente, temos assistido à multiplicidade de estudos notadamente na área dos chamados conhecimentos tradicionais indígenas. A relevância e o interesse por esse tema não é apenas de pesquisadores, instituições brasileiras e internacionais diversas, mas dos povos originários – seja através da participação em projetos de investigadores acadêmicos ou por interesses próprios, por exemplo, em cursos de graduação e pós-graduação. Como resultado dessas pesquisas, têm-se construído novas epistemologias, metodologias de ensino e materiais didáticos, entre outros, que atendam a especificidade de suas formas de ser e viver no mundo. O objetivo dessa comunicação é discutir a produção de materiais didáticos, construídos em diálogo com professores Guarani, destinados às escolas indígenas do Rio de Janeiro. Buscando valorizar os conhecimentos tradicionais desse povo, Mbya arandu, fortalecendo a língua e o nhandereko (jeito de ser Guarani).

Palavras-chave: Professores indígenas – material didático – Guarani

 

02

Saberes Ameríndios e Surgimento das Ciências da Natureza

 

Letícia Lemes (UFRRJ) leticialemes.slv@gmail.com

 

O objetivo desta comunicação é esquadrinhar o processo de apropriação e circulação dos saberes indígenas que viabilizaram a formação da ciência ocidental no Brasil, pautando-se na defesa do argumento de que a circulação ocidental dos saberes indígenas foi fundamental para o estabelecimento das modernas ciências da natureza. O período de estudos de fontes nesta pesquisa se circunscreve entre o fim do século dezoito e início do dezenove; no entanto, em alguns momentos foi necessário recuar nos séculos anteriores para trazer à luz elementos importantes para elucidação de certas inquietações, uma vez que, imediatamente após a chegada dos europeus nas Américas, os preciosos recursos naturais como plantas, animais, pessoas, saberes, e tantos outros elementos foram levados para diversas outras partes do mundo, da mesma forma em que elementos exógenos eram introduzidos.

Palavras-chave: Saberes indígenas, ciência ocidental, circulação de conhecimentos

 

03

Altos dos rios Doce, Jequitinhonha, Mucuri e São Mateus (Minas Gerais):  paisagens de “perigos” e “pobreza”, transformações e processos identitários

 

Izabel Missagia de Mattos (UFRRJ) belmissagia@gmail.com

 

Enquanto ferramenta metodológica para a descrição a etnográfica,  o recurso à “paisagem” enquanto categoria que permite descrever e situar os objetos no tempo, no espaço e na percepção cultural,  parece fundamental para a abordagem dos povos indígenas a partir de uma perspectiva histórica, como fez Cynthia Radding em sua descrição dos povos nas fronteiras da América Espanhola. O aspecto geográfico e cultural da paisagem enfocada na presente comunicação importa devido ao fato da memória social se encontrar também ali situada e referenciada,  assim como a territorialidade,  em suas influências sobre os processos identitários contemporâneos.  Os processos de transformação da paisagem não ocorrem sem consequência para as transformações dos povos e suas cosmologias. 

Palavras-chave: Paisagem – memória social – territorialidade

 

04

HISTÓRIA INDÍGENA E ARQUEOLOGIA NO ESTADO RORAIMA, BRASIL: NOVAS PERSPECTIVAS

 

Jaime de Santana Oliveira, Mestre em Arqueologia (UFPI), atualmente Arqueólogo do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, jaime.oliveira@iphan.gov.br

Ana Flávia Sousa Silva, Mestre em Antropologia e Arqueologia (UFPI), atualmente Arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, naflaviass@gmail.com

Elder da Silva Marques, Mestrando em Preservação do Patrimônio Cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, eldersilvamarques@gmail.com

 

O presente trabalho propõe apresentar algumas reflexões sobre as possibilidades de pesquisas arqueológicas em áreas indígenas situadas no Estado de Roraima, extremo norte do Brasil, partindo de um olhar histórico com vista a discutir uma perspectiva que reduza o descompasso entre os estudos arqueológicos e a história indígena local. Nessa perspectiva, considerando a presença indígena no estado marcada historicamente por luta e resistência atrelada a um contexto colonialista perceptível na construção do passado histórico e arqueológico, apontamos a necessidade de se desenvolver estudos que estejam comprometidos com a construção de um passado e um futuro que valorize as identidades locais e o sentimento de pertencimento aos lugares e territórios ancestrais.

Palavra chaves: Arqueologia. História Indígena. Territorialidade