Arqueologia do passado recente:

repensando temporalidades e empirias

 

Resumo:

A arqueologia tem se dirigido cada vez mais para o presente. Não apenas por ser pensada no e para o presente, mas também por terem seus campos de pesquisa e atuação direta se ampliado para contextos referentes aos séculos XX e XXI. Novos diálogos com outras disciplinas, tais como a antropologia, geografia, história, arquitetura, design, entre outras, têm marcado uma renovação nos estudos de cultura material. O objetivo desse simpósio é reunir pesquisadores que apresentem diferentes campos de atuação e problemáticas a eles associadas, referentes ao passado recente ou mesmo à contemporaneidade.

Uma primeira questão proposta para discussão toca a própria definição da chamada Arqueologia Histórica. Quais os limites temporais de uma “Arqueologia Histórica”? Ela deve ser definida primordialmente como uma arqueologia do Mundo Moderno ou uma arqueologia do capitalismo?

A segunda questão é de caráter empírico e epistemológico. Considerando as empirias disponíveis ao pesquisador que se volta para o que é recente ou mesmo atual, qual a contribuição da abordagem arqueológica quando “tudo está ali” (o presente etnográfico, a memória, “as coisas em ação”)? Quais as possibilidades que se abrem na análise de materiais até então desprezados, como o plástico, por exemplo, como a definição de cronologias mais precisas que permitem a abordagem de novas temporalidades; bem como um leque de novas informações/percepções sobre as coisas-objetos-produtos-artefatos para o entendimento e análise da cultura material.

Por fim, o simpósio propõe reflexões de ordem ética, social e política, considerando o lugar do pesquisador em práticas públicas, colaborativas ou ativistas. Somam-se aqui ponderações humanistas sobre como lidar com passados traumáticos, quando as pessoas impactadas pela violência em questão ainda estão vivas; ou, ainda, sobre o papel da arqueologia como possível mediadora de conflitos. Ressaltando como as nossas práticas científicas atuam e impactam o mundo presente.

 

Palavras-chave:

Passado Recente; Interdisciplinaridade; Temporalidade; Empirias; Práticas Públicas

 

COORDeNADORaS: 

 

Camilla AgostiniProfessora Adjunto – Departamento de Arqueologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro / UERJ. camilla.rio.br@gmail.com

Mariana Petry Cabral, Professora Adjunto – Departamento de Antropologia e Arqueologia. Universidade Federal de Minas Gerais. nanacabral75@gmail.com

 

DEBATEDORA;

Márcia Bezerra, Universidade Federal do Pará. marciabezerrac14@gmail.com

 

PONENCIAS

 

01

Presente Arqueológico: temporalidades e saberes inscritos em ruínas e memórias

 

Camilla Agostini. Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Brasil. camilla.rio.br@gmail.com

 

Quando um sítio arqueológico apresenta diferentes temporalidades, incluindo sua contemporaneidade, surge a questão de como lidar com o presente arqueológico. A pesquisa na qual essa apresentação se baseia iniciou-se com um interesse histórico-arqueológico sobre a logística clandestina do tráfico negreiro para o Brasil na sua fase de ilegalidade. A prática do trabalho de campo, contudo, para além do tempo da escravidão, incluiu um olhar sobre a contemporaneidade das ruínas de um antigo entreposto de recepção ilegal de africanos, que continua sendo usado, apropriado e partícipe da vida no local, como ruína.

Nessa apresentação, portanto, o intuito é estabelecer um diálogo entre esse tempo da escravidão e do tráfico ilegal de escravos e o tempo “encantado” da religião, particularmente da Umbanda, que tem o local como uma extensão dos terreiros, levando para lá suas práticas com diferentes finalidades. Do ponto de vista epistemológico a atenção, assim, é para o encontro do presente “histórico” das ruínas e de quem vive e visita hoje o local e o presente “anímico ou espiritual” de quem ali permanece.

 

02

Arqueologia, os Pretos D’antes e os Povos do Aproga: uma pesquisa às materialidades e temporalidades da (r)existência quilombola na Amazônia brasileira. 

 

Irislane Pereira de Moraes. Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) / Brasil. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais (PPGAN-UFMG) / Brasil. irislane_moraes@yahoo.com.br

 

Nesta comunicação apresento algumas reflexões e experiências de pesquisa empreendida desde 2010 junto às cinco comunidades tradicionais quilombolas na Amazônia paraense, por sua vez autodefinidas como “Povos do Aproaga”. O termo Aproaga faz referencia a um antigo engenho escravista erigido às margens do rio Capim que, hoje em ruínas, compõe o território tradicional construído junto a um mosaico de paisagens, materialidades e temporalidades. Esse diversificado repertório material e temporal daquelas comunidades se faz imbricado por narrativas de memórias tanto do tempo presente, marcado por reivindicações, quanto do tempo d’antes de seus antepassados, por elas referidos como “Pretos D’antes”. Assim, a perspectiva etnográfica no curso metodológico da relação de pesquisa tem sido um diferencial ainda potencialmente enriquecedor da construção do conhecimento desse mundo sensível e aquilombado. Porquanto, a compreensão desse emaranhado de coisas, pessoas e lugares torna-se fundamental para que encontros interculturais se efetivem de maneira não violenta e, Oxalá, sejam reciprocamente colaborativos na produção, atualização e transmissão do conhecimento acerca da (r)existência quilombola na região. Espero ainda contribuir para tornar a arqueologia uma pratica cada vez mais descolonial e socialmente engajada, ao somar tal estudo à luta quilombola pela titulação definitiva de território, atualmente encampada pelos Povos do Aproaga.

 

03

Memoria reciente, arqueología y tiempo: Sobre los posibles efectos de la práctica etnográfica.

 

Gustavo Verdesio. University of Michigan / EUA. verdesio@umich.edu

 

El trabajo del arqueólogo que se ocupa del pasado reciente o incluso del presente es uno en el que los seres humanos que produjeron, o se relacionaron con, los objetos estudiados, aun están vivos o descienden de aquellos. En estos casos, los investigadores tienen la ventaja de poder contar con fuentes escritas que hablan de los sucesos históricos que dieron contexto a la producción del registro material estudiado. Lo que también tienen (y no siempre sacan provecho de ello), es acceso a memorias orales de los descendientes o protagonistas de los hechos estudiados. En este trabajo voy a discutir la importancia de la incorporación de métodos etnográficos a las investigaciones arqueológicas del pasado reciente. Para ello, voy a discutir el trabajo de Jason de León sobre el cruce de la frontera entre México y EEUU y el de José María López Mazz sobre la exhumación de militantes políticos desaparecidos durante la dictadura uruguaya a fin de analizar los efectos que la práctica etnográfica puede tener sobre la temporalidad y el tiempo producidos por la investigación arqueología.

 

04

Arqueologia vai à feira: resistências e resiliências no centro histórico de Ouro Preto – MG.

 

Vinicius Melquíades. Doutorando em Arqueologia – Universidade de São Paulo / Brasil. melquiadesvinicius@gmail.com

 

No meu primeiro contato com a “Feira de pedra-sabão”, situada no centro histórico de Ouro Preto, um levantamento inicial mostrou que as informações eram poucas e destacavam a condição irregular da Feira, divergindo dos discursos das/dos feirantes. Constatada essas controversas, foi proposto um estudo colaborativo para a construção da história de vida da feira e suas relações.

Posteriormente, foi possível diagnosticar através do discurso dos feirantes que eles sofriam coerção política em função do uso do espaço. Também estava em trâmite uma proposta da prefeitura de transferência do lugar da Feira, do Largo do Coimbra para a antiga Santa Casa, sem consulta aos feirantes. As resistências aparecem tanto no discurso deles, quanto em manifesto publicado no jornal local em 2011 que faz uma crítica direta ao projeto supracitado.

Assim, foi feito registro e estudo de oralidade e espacialidade, acompanhamento e observação participante no cotidiano da feira e descrição densa das materialidades e suas relações. Nessa apresentação, a partir deste caso e da história de vida da Feira, pretendo refletir sobre questões epistemológicas que surgiram ao longo da pesquisa, em diálogo com os debates que vem sendo desenvolvidos na arqueologia e em outras ciências.

 

05

El paisaje cultural marítimo de Puerto Colombia. Investigación transdisciplinaria desde la oceanografía, la historia y la arqueología.

 

Juan Guillermo Martín, PhD. Universidad del Norte – Barranquilla / Colombia. jgmartin@uninorte.edu.co

 

Puerto Colombia se consolida como la puerta de entrada de la modernidad al país, a partir de 1893. Su posición estratégica y cercanía con la ciudad más moderna del Caribe colombiano, Barranquilla, eclipsó a los viejos puertos coloniales de Cartagena de Indias y Santa Marta.

Su intensa actividad marítima llevó a la construcción de un muelle de 1100 m de largo, así como una serie de infraestructura portuaria que garantizó su operación hasta 1943, cuando se abandona.

La presencia del muelle y de la aduana generó el asentamiento espontáneo de una población que se dedicó a ofrecer diversos servicios a la actividad portuaria, consolidando finalmente un municipio con autonomía administrativa.

Finalmente la decisión gubernamental de trasladar el puerto marítimo a uno fluvial en Barranquilla, sobre el río Magdalena, generó el declive de Puerto Colombia y su depresión económica y social.

En la actualidad el municipio se proyecta como un destino turístico que busca articular su efímero pasado con la construcción de un discurso patrimonial que ofrezca  alternativas económicas para su desarrollo. En este punto, la investigación del paisaje cultural marítimo de Puerto Colombia comienza a cobrar protagonismo.

 

06

O fim está próximo: arqueologia da sexta extinção em massa. Contribuições da arqueologia para os estudos dos riscos existenciais e das possibilidades de extinção humana

 

Orestes Jayme Mega. Doutorando em Antropologia com área de concentração em Arqueologia pela UFPel / Brasil. orestes_mega@yahoo.com.br

 

Espécies surgem e espécies desaparecem. O Homo sapiens, sendo mais uma espécie de mamífero na Terra, provavelmente seguirá o mesmo destino de todas as demais espécies que vivem ou que um dia viveram no planeta, isto é, se extinguir. O objetivo deste trabalho é o de analisar o papel que a cultura material possui como elemento que pode levar o Homo sapiens à extinção. Dois modelos de extinção do Homo sapiens são apresentados. Em ambos a cultura material funciona como eixo das reflexões. Em um dos modelos, faz-se uma análise do papel que as armas atômicas de destruição em massa, largamente produzidas durante a segunda metade do século XX, teriam no caso de uma guerra nuclear. No outro modelo, faz-se uma análise do papel destrutivo da cultura material sobre a biodiversidade, podendo levar o Homo sapiens à extinção através da degradação ambiental no fenômeno conhecido como Sexta Extinção em Massa. O objetivo deste trabalho é o de apresentar as contribuições que a arqueologia pode dar aos emergentes campos interdisciplinares dos Riscos Existenciais (BOSTROM, 2002) e das Possibilidades de Extinção Humana (MEGA, MYAKE, 2016; MEGA et al, 2017).

 

07

Evocaciones materiales de lo andino y lo no andino: discursos de clase y nación en el palimpsesto urbano de la paz, bolivia

 

Juan Villanueva Criales. Museo Nacional de Etnografía y Folklore – La Paz / Bolivia. juan.villanuevacriales@gmail.com

Elsa Valeria Antezana Soria, del Programa de Postgrado en Antropología UCN-UTA valeria1486@gmail.com. 

 

Una inusual heterogeneidad topográfica y de suelos, junto con una larga y convulsa historia de ocupación, convierten a la ciudad andina de La Paz, Bolivia, en un lugar privilegiado para el estudio material. Desde su fundación oficial en el siglo XVI, La Paz discurre bajo el sino de la separación entre lo “europeo” y lo “indio”. El primero de estos dos segmentos, dominante durante la mayor parte de la historia, ha ideado constantemente dispositivos urbanísticos de exclusividad/exclusión. Sin embargo, en ciertos sectores de la ciudad la raigambre indígena, muchas veces urbanizada bajo rótulos como “lo cholo” o “burguesía aymara” ha generado sus propios espacios y expresiones de poder. La situación se complejiza con la intervención, en el trazado público, de sucesivos gobiernos republicanos y los discursos de bolivianidad –referentes pasados y proyecciones a futuro- que reivindicaron.

Este trabajo toma forma de un recorrido urbano por hitos arquitectónicos, escultóricos y urbanísticos de La Paz. Hace énfasis en las apropiaciones de lo “occidental”, lo indígena y lo prehispánico de parte del estado y los segmentos privados. En el recorrido, permite notar que, formando parte de un gran palimpsesto constantemente experimentado y reinterpretado, La Paz revierte el orden cartesiano de la temporalidad “estratigráfica”.

 

08

Arqueologia para o presente: arqueólogos parados, indígenas em movimento

 

Juliana Salles Machado. Universidade Federal de Santa Catarina / Brasil.  julianasallesmachado@gmail.com

 

A prática arqueológica entre coletivos humanos apesar de ainda representar uma parcela pequena da disciplina, tem assumido cada vez mais espaço na arqueologia. Mais do que um aumento no número de pesquisadores atuando entre povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos ou outros coletivos, elas chamam atenção pela diversidade de suas experiências. Diversidade que pode ser vista nas problemáticas de pesquisa, nas escolhas metodológicas, nos suportes das análises, além das diferentes formas de relação e interação entre os pesquisadores e os interlocutores não acadêmicos. Estes contextos diversos nos levam a pensar sobre o próprio fazer da arqueologia. Através de um estudo de caso acerca de uma experiência colaborativa entre os Laklãnõ Xokleng, povo indígena do sul do Brasil, neste simpósio pretendo refletir sobre a relação entre o que está em movimento e o que está parado. Tais reflexões se desdobram tanto em questões epistemológicas (Como uma arqueologia em movimento pode dialogar com arqueologias presas em categorias estanques?), quanto éticas (o saber-fazer do arqueólogo nos movimentos sociais) da prática de uma arqueologia que se quer para o presente.