TEMPORALIDADE, PAISAGENS E CULTURA MATERIAL NA BACIA DO RIO MADEIRA, BRASIL.

 

Resumo:

 

A região da bacia do rio Madeira apresenta vestígios arqueológicos de ocupações contínuas nos últimos milênios, sendo também palco de uma grande diversidade lingüística e cultural percebidas por estudos linguísticos, antropológicos e arqueológicos. Este simpósio visa contribuir na discussão e aprimoramento de metodologias utilizadas para gerar conhecimento arqueológico sobre as ocupações humanas nas margens do rio Madeira, iniciada há mais de sete mil anos, tendo como panorama a cultura material aliada à temporalidade e aos lugares. Conhecer a cultura material é entender a sua função simbólica aceite e incorporada pelos lugares persistentes[1] e de gente, e ter interesse pelas tecnologias tradicionais é querer saber como nasce o objeto, quem e como o concebe, e em que tarefas as sociedades estão envolvidas na constante ressignificação de uma determinada cultura material, e dos lugares na paisagem. Por fim, enfatizamos que muito além das sociedades do passado, correntes atuais da arqueologia têm pensado em sociedades contemporâneas para entender aspectos ligados à interações sociais do presente a partir da materialidade. Dessa forma, visando discutir algumas informações geradas sobre a ocupação humana nas margens do rio Madeira, bem como demonstrar a relação das comunidades e a paisagem numa tentativa de reaver o caráter histórico, abordando, ainda, questões como a continuidade envolvida na constante ressignificação da cultura material e dos recursos ambientais locais, que podem ter resultado na paisagem que vemos no presente é que propõe-se este simpósio.

 

[1] Conforme Schlanger (1992) os "lugares persistentes" podem ser classificados em categorias, a saber: Certas particularidades do local que o fazem singular e requisitado para certas atividades, práticas ou comportamentos; Existência de certas características que os tornam foco de seguidas reocupações; Existência de matéria-prima, cultura material ou estruturas (de qualquer tipo) de outras ocupações que podem ser reutilizadas.

Palavras-chave:

Temporalidade, cultura material, paisagem, metodologia arqueológica, rio Madeira.

 

COORDINADORES: 

Juliana Rossato Santi, Professor of the Department of Archeology in Federal University of Rondonia, Brazil, juliana.santi@unir.br.

Laura Nisinga Cabral, Master student of the Postgraduate Program in Geography of the Federal University of Rondonia, Brazil, laura_nisinga@yahoo.com.br.

 

debatedor ou Comentarista do simpósio:

 

Elisangela Regina de Oliveira, Professora Mestre do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia, Brasil, elisoliveira@unir.br.

 

trabalhos

 

01

DE COLECIONADORES A LADRÕES DE RAIO: COMERCIALIZAÇÃO E TRÁFICO DE PEÇAS ARQUEOLÓGICAS

 

Alyne Mayara Rufino dos Santos, Arqueóloga Museu da Memória Rondoniense, Alyne.arqueologia@gmail.com.

 

Este trabalho buscou abordar a problemática em torno da comercialização e tráfico de material arqueológico na região norte do Brasil. Apresentando primeiramente noções de patrimônio e criações de suas terminologias. Discorrendo posteriormente sobre a falta de políticas públicas destinadas ao patrimônio arqueológico, a influência capitalista na arqueologia e também sobre arqueologia pública. Abordamos ainda informações sobre a comercialização e tráfico de peças arqueológicas na América do Sul, Brasil, Amazônia e Rondônia, com abordagens e discussões em torno da Coleção José Moreira, advinda de uma apreensão realizada no município de Cacoal, a qual estava sendo comercializada em uma loja de artesanatos, seu processo encontra-se em andamento. Tais práticas têm sido observadas nos países da América do Sul, motivada principalmente pelo crescimento de projetos e planos de desenvolvimento e sustentabilidade na Amazônia na presente década. Não há dados precisos sobre a quantidade de sítios arqueológicos existentes na Amazônia, mas, diante do imenso potencial arqueológico da região, temos situações variadas no que se refere à apropriação indevida de bens arqueológicos.

 

02

PEDRAS NO CAMINHO? EU GUARDO TODAS. ANÁLISE TECNOLÓGICA DA INDÚSTRIA LÍTICA DO SÍTIO BREJO, RO.

 

Cleiciane Aiane Noleto da Silva, Arqueóloga, Universidade Federal de Rondônia, Brasil, cleinoleto@hotmail.com.

 

Desde o início das pesquisas arqueológicas no Brasil os estudos relacionados aos vestígios líticos são poucos e pontuais e, em maioria, objetivam estudar o período de transição entre o Pleistoceno e Holoceno. Nossa contribuição se dá a partir dessa monografia de graduação, com a análise da indústria lítica do sítio arqueológico Brejo, que se localizava na margem direita do rio Madeira, próximo à cachoeira de Sto. Antônio e se trata de ocupação entre 1390 e 760 AP de grupo ceramista. Desta forma, visamos identificar matérias-primas líticas, as técnicas utilizadas para trabalhá-la, sua distribuição e concentração no espaço e tempo dentro do sítio para propor interpretações sobre a utilização dos espaços e seus possíveis significados a partir da noção de sistema tecnológico. Com isso foi possível fazer relações entre classes líticas, matérias-primas e estratigrafia, além das relações entre cerâmica e lítico nas camadas com e sem terra preta arqueológica dentro do sítio

 

03

ARQUEOLOGIA HISTÓRICA NO ALTO RIO MADEIRA: CURADORIA, ANÁLISE E CATALOGAÇÃO DAS LOUÇAS “COLEÇÃO VILA DE SANTO ANTÔNIO” - PORTO VELHO, RONDÔNIA – BRASIL.

 

Eclésia Gonçalves do Nascimento, Arqueóloga, Universidade Federal de Rondônia, Brasil, eclesia8@hotmail.com.

 

O presente trabalho aborda o estudo das louças da Coleção Vila de Santo Antônio (C.V.S.A.), material proveniente de coletas assistemáticas realizadas por “terceiros” e recuperados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/RO repassada para Universidade Federal de Rondônia. A coleção atualmente encontra-se salvaguardada na Reserva Técnica do Departamento de Arqueologia – DARQ da UNIR utilizada como material didático na disciplina de arqueologia histórica. A pesquisa em questão passou pelos processos metodológicos denominados de curadoria, análise, acondicionamento das peças, digitalização dos dados, tendo como objetivo final a confecção de um catálogo dessas louças contendo as informações da análise com base na bibliografia sobre o tema e as informações referente à documentação da institucionalização da coleção e seus pontos de coletas, permitindo que o acesso aos dados desta coleção seja facilitado tanto para seu uso didático quanto para pesquisas futuras, garantindo a guarda do patrimônio arqueológico, incentivando o desenvolvimento de projetos de extensão a fim de que a comunidade a conheça e de certa forma tenha retorno da sua história, dos processos econômicos, políticos e culturais na Amazônia.

 

04

COMPOSIÇÃO QUÍMICA DA TERRA PRETA ARQUEOLÓGICA DO SÍTIO ILHA SANTO ANTÔNIO, PORTO VELHO-RO.

 

Emanuella da Costa Oliveira, Arqueóloga, Universidade Federal de Rondônia, Brasil, emanuellacosta.oliveira@gmail.com.

 

O sitio arqueológico Ilha Santo Antônio está localizado na cachoeira homônima, no município de Porto Velho, RO. É um sítio multicomponecial possuindo pelo menos três ocupações: pré-ceramista, ceramista e histórica. Apresenta datações de 990±40 AP para o horizonte cerâmico e 7,760±50 AP para o horizonte pré-cerâmico. O Sítio foi dividido em três setores. Setor I: setor vasilhas (R1, R2 e R3) e entorno, sendo identificadas três camadas, podendo ser classificadas no consenso geral como camada húmica/orgânica, TPA e latossolo. Setor II: identificado o setor cerâmico sem TPA, sedimentos arenosos bruno a bruno amarelado que gradam para solos argilosos amarelados a avermelhados. Setor III: sul da ilha, cinco camadas (orgânica, areias finas, TPA enterrada entre 20-30 cm, areias e solos amarelados). Elaboramos um mapa com a dispersão da TPA, e realizamos análise química de solo nas unidades: N959 E841 e N922 E949 (setores I e II) a fim de compararmos se há divergência nos teores químicos destas unidades ou semelhanças, devido a unidade pré-cerâmica não possuir terra preta ao contrário da cerâmica. Quando comparamos as duas unidades percebemos que os níveis de P e Ca são elevados, sendo o fósforo com teores altos em todas as amostras elegidas para a análise.

 

05

DESAFIOS DE UM LEVANTAMENTO ARBÓREO NOS ENTORNOS DO SÍTIO DONZA, PORTO VELHO – RO

 

Glenda Maria Bastos Félix, Bióloga, Arqueóloga e Técnica de Laboratório e Museu, Universidade Federal de Rondônia, Brasil, glenda.felix@unir.br.

 

Este levantamento tem por objetivo identificar o remanescente vegetal que se encontra a área Sítio arqueológico Donza bem como estabelecer comparativos futuros com os dados provenientes da escavação do Sítio. Este sítio encontra-se na margem Direita do Rio Madeira, há mais ou menos trinta quilômetros da capital Porto Velho. O sítio foi identificado em 2015 e na época, após a cheia histórica do Rio Madeira em 2014, a vegetação era bem escassa, constituindo apenas de gramíneas e vegetação primária e poucos exemplares de vegetação secundária. Na segunda etapa de campo realizada no sítio, resolveu-se então fazer um levantamento mais a fundo da vegetação que estava no local. A metodologia utilizada foi a divisão da área da delimitação do sítio em parcelas. Constatou-se nesse levantamento que a vegetação continua basicamente de plantas primárias que possivelmente advindas da cheia de 2014. Algumas espécies da família Arecaceae foram identificadas, como o Babaçu (Attalea speciosa). Pode também ser observadas espécies de madeira de lei, como a Faveira (família botânica Fabaceae).

 

06

LUGARES PERSISTENTES E DE GENTES: O ESTUDO DE MACROVESTÍGIOS BOTÂNICOS NO SÍTIO ARQUEOLÓGICO DONZA, RIO MADEIRA, PORTO VELHO, RONDÔNIA.

 

Juliana Rossato Santi, Professora Doutora do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia, Brasil, juliana.santi@unir.br;

 

Este trabalho visa contribuir o conhecimento arqueológico sobre a ocupação humana nas margens do rio Madeira, no Sítio arqueológico Donza, a partir da análise dos macrovestígios botânicos provenientes de coletas durante as escavações em campo e pelo método de flotação em laboratório. O sítio arqueológico Donza encontra-se no barranco da margem esquerda do rio Madeira, na comunidade de Itacoã, 50 km a jusante da cidade de Porto velho, e localizado próximo a foz do rio Jamari. Este sítio foi identificado por alguns moradores, que observam há anos a presença de fragmentos de vasilhas cerâmicas e líticos polidos em um local junto ao barranco do rio. Ele é caracterizado pela presença de terra preta arqueológica, vasilhas cerâmicas inteiras com fragmentos de ossos humanos, sendo encontrados fragmentos cerâmicos, líticos lascados e polidos, restos botânicos (sementes, carvões) e restos faunísticos (ossos de diferentes animais). O uso dos macro vestígios botânicos, na compreensão de parte do contexto deste sítio, é feito no sentido de contribuir com a tarefa de desvendar a diversidade espaço-temporal e cultural no alto rio Madeira, em Porto Velho/RO, e perceber os significados das paisagens e dos saberes locais que interligam as ocupações humanas na região ao longo dos milênios.

 

07

ÁREAS DE OCUPAÇÃO: DIFERENÇAS NOTADAS ATRAVÉS DA ANÁLISE DOS VESTÍGIOS LÍTICOS DA ILHA DE SANTO ANTÔNIO, PORTO VELHO, RO

 

Laura Nisinga Cabral, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Rondônia, laura_nisinga@yahoo.com.br.

 

A apropriação da paisagem por comunidades pretéritas torna-se evidente não somente pelo estabelecimento de longa cronologia, mas também pela utilização de seu espaço interno. A análise da cultura material torna-se necessária para entender essa relação com as comunidades que tiveram sua presença marcada na paisagem transformada agora em vestígio arqueológico. No sítio arqueológico Ilha de Santo Antônio a presença na paisagem data de 7.000 anos antes do presente (A.P.) e a ocupação neste período de tempo foi diversa. Estudos dos materiais cerâmicos nos informam que nesta localidade houveram 5 tecnologias de estilos diferentes e a ocupação a-ceramista é afastada da localização da ocupação ceramista. Este trabalho propõe, através de análises do material lítico, discutir a diferença que esse material pode indicar entre essas ocupações, o registro material e as alterações que se pode perceber nestes 7.000 anos de etnohistória.

 

08

ARQUEOLOGIA CONTEMPORÂNEA DO CONFLITO E DA RESISTÊNCIA: MATERIALIDADE E O CONFLITO PELA TERRA EM RONDÔNIA.

 

Valéria Cristina Ferreira e Silva, Professora Mestra da Universidade Federal de Rondônia, valcfs@unir.br.

 

No trabalho em questão propõe-se refletir em torno das possibilidades da realização de uma arqueologia do passado recente e contemporânea, direcionada a materialidade envolvida nos contextos de conflitos por terra e resistência dos (as) camponeses (as) em Rondônia. Discutir sobre as possibilidades de análises das ações e práticas culturais através das quais pessoas reconstroem suas memórias e resistem nesses contextos.